A CRÍTICA ESPECIALIZADA E SUA FUNÇÃO NO TEATRO PARA CRIANÇAS

 

Por Carlos Augusto Nazareth

 

A crítica especializada teatral é uma questão polêmica que dá origem a inúmeros debates e posicionamentos diferentes.

 

Inúmeros teóricos discutiram e discutem ainda a função da crítica, o porquê da crítica, a ótica da crítica.

 

Partimos do princípio que a crítica é uma leitura técnica e emotiva de uma expressão artística que não se repete, é única, em sua diversidade. Não vamos entrar na discussão teórica da função e do valor da crítica, pois sempre esta discussão está relacionada ao teatro para adultos. Vamos partir do ponto seguinte – onde a crítica já é uma realidade; existe e sempre será um manancial de discussões.

 

Aqui, estamos mais interessados em outro aspecto da crítica. Embora tudo seja TEATRO, o teatro para crianças, além de algumas especificidades, tem um aspecto que não pertence ao teatro adulto. As peças não são escolhidas pelo espectador, as peças são escolhidas pelos mediadores - pais e professores – que levam as crianças aos teatros.

 

O público adulto escolhe as peças que deseja ver pelo repertório inerente a cada segmento da população, levando-se em conta gosto pessoal, grau de informação, prazer em assistir teatro, preferência por gêneros teatrais como – comédias, dramas, musicais... gêneros mais recentes como o stand up, o teatro da nada que é um jogo cênico ágil, mas uma nova abordagem sem dúvida.

 

Já o público infantil sua ida ao teatro fica a cargo dos mediadores. E perguntamos: se o teatro não é um hábito do brasileiro, se o público que frequenta teatro já não é tão numeroso quanto o desejado, como este mesmo público que desconhece e não vai ao teatro vai escolher os espetáculos a que levar seus filhos e alunos? Que critérios, que referências?  O adulto tem já suas referências, por vezes equivocadas ou não,

mas já construídas. O mediador tem que olhar com o olhar do outro. Da criança que ele vai ter a responsabilidade de levar ao teatro.

 

Daí já partimos de uma gama infinita de olhares tão diversificados como os olhares adultos que escolhem seu próprio espetáculo, aqui, os olhares adultos escolhem os espetáculos para as crianças, para o outro  e então parte-se de uma primeira pergunta – por que teatro? Por que levar a criança ao teatro?

 

“O teatro é de importância vital para toda criança desde seus primeiros anos de vida. A arte dramática nos dá acesso a uma comunidade fora da nossa própria família ...

Porque no teatro há um “eu”, aquele que “representa” ou ....como se os acontecimentos fossem de fato reais, de modo que os outros, “eles”, o público, pensem que eles são reais. E então chegamos ao “Você”.

Esta unidade de “eu e você” no palco é tão poderosa que ela cria um “nós” em termos de uma linguagem secreta. Participar de um acontecimento teatral como um espectador – ou “espect-ator” como o grande Augusto Boal diria – em todo caso, é sobre unir-se e aceitar o faz-de-conta como nós fazíamos na nossa infância. 
Uma criança se dá conta de que seu mundo existe através de um jogo jogado com a realidade. E uma criança só pode aprender a partir de minúsculos momentos de experiência porque ela ainda não tem consciência de padrões, regras e dogmas…”

 

(Fragmento do texto da ASSITEJ em comemoração ao Dia Mundial do Teatro para a Infância e Juventude)

 

É ponto de partida que a Arte faz parte integrante da formação integral do ser humano – aqui olhamos o teatro, mas a música, as artes plásticas, a dança e todo e qualquer tipo de manifestação artística contribui, cada um a sua maneira  para a construção do indivíduo.  Temos, pois, que propiciar a esta população em formação o contato com todos estes tipos de manifestação artística, sob pena de se tornarem pessoas menos humanizadas, menos sensíveis, menos perceptivas, menos amplas.

 

O teatro para crianças possibilita diversas experiências à criança, que são elementos formadores de sua personalidade.

 

O teatro, em primeiro lugar, trabalha com inúmeras linguagens artísticas – o texto, a palavra, o gesto, a expressão corporal, a música, a luz, as artes plásticas presentes nos figurinos, nos cenários, nos adereços, o movimento.  E cada expressão destas está a serviço de um só elemento: o espetáculo, mas atua sobre os espectadores, cada uma, de uma forma diferente. O somatório destas influências evidentemente é uma forte dose de Arte que irá com certeza contribuir em algum momento na formação integral do ser humano em formação.

 

 Todos – atores, linguagens, criadores, técnicos, diretores, têm que estar em sintonia para que se crie um produto cênico coeso e orgânico, e que assim se possa transmitir uma série de emoções e reações em suas diversas linguagens mas todas voltadas para os objetivos primeiros do espetáculo teatral.Daí dizermos sempre, repetindo Margaretha Nicolescu, que, antes de montar um texto se pergunte cinco vezes por que montá-lo. Se você obtiver cinco boas respostas, monte-o imediatamente. Caso não, engavete o texto, a ideia de montar e parta em busca de algo que o apaixone e arrebate.

 

Funções específicas da crítica de teatro para crianças

 

Além ou junto com a função da crítica especializada de observar, comentar, entender, discutir, questionar, oferecer parâmetros de modo que a análise do outro possa ser mais ampla, a crítica feita ao espetáculo infantil tem funções outras que vão além da crítica em si.

 

Abordando novamente esta questão, os espetáculos escolhidos para as crianças são feitas não pelas crianças, mas pelos mediadores, pais e professores. E que parâmetros têm estes pais e professores para avaliar uma crítica simplesmente por um tijolinho?

 

Claro que as escolhas passam, quando feitas pelos pais, no lugar mais próximo de casa, no lugar mais fácil de estacionar, no lugar onde haja um lanche após o espetáculo mais próximo . Passa também  se a peça tem algum nome conhecido da televisão ou se é titulo de uma das histórias que o mediador ouviu / viu quando criança – e aí normalmente os clássicos levam toda a vantagem.

Acontece que a realidade da realização teatral, claro, os mediadores desconhecem, não sabem portanto que a maioria dos clássicos é mal construída, são arremedos de Walt Disney e não dos

contos originais; chegam mesmo a serem cópias dos filmes, imitando tipo físico do personagens, com padrão americano, os figurinos, as músicas e até mesmo cenários copiados, Portanto a essência do conto popular, que já foi “edulcorado” por Disney, despido já de seus significados maiores, quando chegam ao palco são na verdade um arremedo de teatro, na verdade uma animação de festas, pois por vezes estes mesmos ditos espetáculos teatrais são contratados para festas de aniversários. As crianças adoram. Adoram? Claro. O que é necessário entender que ali não há teatro e sim uma animação de festas. O teatro é outra história bem diversa. Mas este conhecimento claro não pertence à área dos mediadores, então cabe aos críticos a função de “conselheiros”, de “olheiros”, de “orientadores”. É necessário dar uma ideia do que seja o espetáculo, pois o tipo de fábula pode atrair mais a uns que a outros, é necessário avaliar de forma compreensível para o leigo o que se vê em cena, e cabe ao crítico justificar,  explicar seu  ponto de vista de modo que o mediador entenda o porquê do seu comentário ou positivo ou negativo. Enfim, a crítica especializada do teatro infantil tem que ser escrita a partir de um profundo conhecimento do crítico sobre linguagem teatral, sobre texto, sobre dramaturgia, e, ao mesmo tempo, uma interlocução com o mediador. A ele está sendo dirigida a crítica. Para este público a crítica não pode se aprofundar em  teorias do teatro, mas tem que se fundamentar nelas, e deve informar aos mediadores o que as crianças assistirão no palco, até mesmo o gênero de espetáculo e um breve resumo critico do texto e do espetáculo. Assim acreditamos que o crítico de teatro infantil está cumprindo uma dupla função – o de crítico e o de interlocutor dos medidores, seu público-alvo.

 

Esta crítica pode também ser mais sucinta, ao nível da resenha crítica, e se crítica, com julgamento de valor, ou mais aprofundada quando nosso público alvo são os realizadores de teatro ou mesmo o público em geral, mas aquele que já domina, de certa forma, a linguagem teatral, e é capaz de entender a linguagem especializada do crítico.