ARTE ESTÉTICA E RUPTURA

ARTE ESTÉTICA E RUPTURA
por carlos augusto nazareth

A história da criança passa pela história da humanidade, das relações de poder, descaso, posse e coisificação do ser humano, principalmente da chamadas minorias - mulheres, escravos, negros, índios e crianças.
Desde a antiguidade as crianças, as mulheres e os escravos eram considerados seres inferiores e em relação de dependência com os seus senhores.
Há registros históricos que falam da venda da criança pra trabalho escravo em outra família, que não a consangüínea e que não eram filhos de escravos, mas filhos de brancos, europeus, que vendiam seus filhos, muitas vezes com as mães, pois conseguiam, assim, um melhor preço, como hoje se vende, por melhor preço uma “vaca leiteira com o bezerro no pé” – como falam os tropeiros pelos interiores do Brasil.
São marcas ontológicas que permanecem no inconsciente coletivo, provocando, ainda hoje, ações conseqüentes destas posturas seculares.
No Brasil o teatro para crianças nasce no seio da igreja catequética que quer passar valores éticos e morais e usa o teatro como meio auxiliar para seu ensinamento. O ranço deste seio religioso, catequético, educativo, moralista das origens do teatro se alia às origens da história da criança no mundo e no Brasil.
E dando seguimento a esta história vamos nos focar em um fato significativo também no mundo e no Brasil – a “roda dos expostos”. Uma instituição criada na época da Colônia, passou pelo Império, pela República, somente tendo sido extinta em 1950. Como aconteceu em relação à escravidão, o Brasil foi um dos últimos países a extinguir a “roda dos expostos”
A roda foi instituída por instituições caritativas, mosteiros e revelam a relação da sociedade e da igreja com a criança.
No entanto, este instituto da “roda dos expostos” exerceu importante papel, no Brasil, pois era praticamente a única instituição de assistência à criança abandonada.
A roda dos expostos é uma ação nascida na Europa Medieval. Os conventos e Santas Casas estavam na verdade preocupados com o batismo das crianças, salvação das almas, antes mesmo do que atender ao ser humano abandonado pelo próprio homem. A primeira providência das casas que recolhiam os abandonados era o batismo, a não ser que a criança trouxesse algum bilhete que dissesse já ter recebido esse sacramento. Consequentemente e não prioritariamente eram assistidas com a ajuda do governo e de particulares, porém, mais tarde, exerciam trabalho auxiliar nos mosteiros. Eram os chamados oblatos que ao crescerem passavam a servir a Deus – e ao mosteiro, não muito diferente das famílias que adotavam também as crianças abandonadas com a intenção de mais tarde prestarem serviços domésticos auxiliares. Não é necessário dizer que as exceções existiam e nos primeiros censos, de algumas famílias os “acolhidos” eram contados como filhos legítimos da família, mas evidentemente esta era a exceção necessária para confirmar a regra.
Esta relação da sociedade com a criança não-desejada, geralmente nascidas de um “mal-passo” da mãe tinha origem na moral vigente na época onde o conceito sobre as relações sexuais eram tratadas como relações advindas do clima tropical, do ócio e do vício.
“ Como a constituição do clima conduz muito pra a liberdade, não faltam ociosos que se aproveitem dela para continuarem na repetição de vícios” (Trecho de carta de 1726, do vice-rei ao rei, para convencê-lo a autorizar a abertura de uma Roda de Expostos).
Houve, portanto, um longo processo histórico até a sociedade começar a reconehcer a infância. E assim mesmo a particularidade da infância não é reconhecida e realizada para todas as crianças – diferenças de classe, de gênero e de raça fazem com que nem todos vivam a infância da mesma forma.
A infância é, pois, não um período determinado da vida, mas uma construção histórica, que no Brasil, só a partir dos anos 60 introduziu um modelo e uma orientação diferenciados para infância abandonada, no entanto mal conduzido pelas entidades que se criaram na época.
Apenas em 1988 surgiu o Direitos Internacionais da Criança. O Estatuto da Criança e do Adolescente surge em 1990 e apenas em 1993 o Estado assume sua responsabilidade sobre a assistência à infância e à adolescência desvalida.
Portanto ao nos depararmos com a história da criança no Brasil e no mundo vemos que o que nos incomoda hoje é na verdade um pequeno reflexo de toda uma história que vem dos primórdios da humanidade e passa pela construção histórica das diferentes épocas e paises.
Este sentimento de infância surge apenas na modernidade. Na Idade Média não havia claro este conceito de criança, já que todos participavam igualmente da vida familiar, como um todo, presenciavam todos os fatos; não havia o interdito, sequer em relação a vida sexual familiar, todos eram muito próximos. Diferente de outros momentos, outras culturas e outras regiões. Portanto esta construção histórica da infância é plural e na maioria das vezes consideramos infância a imagem que construímos ontologicamente: a minoria, a que não tem palavra, a que não tem querer, dependente. Nossas conceituações sobre infância estão submersas em visões históricas do adulto que vive a infância a partir desta história e as imagens e conceitos que se formaram em nosso inconsciente.
E seguimos agindo assim com este descaso, ora tratando a criança como uma tabula rasa, ora tratando a criança como fonte da inocência, ora como um ser terrível, ou desprezível, jamais ouvindo a criança e tentando entender este ser que dialoga com o mundo e são atores sociais, interagem com as pessoas, as instituições, reagem frente aos adultos e desenvolvem estratégias de luta para participar do mundo.
Enquanto não se mudar as relações sociais de poder e de afeto, de atitude e consciência política, do Estado e de toda a sociedade, em relação a sua responsabilidade com a criança – um ser com o qual temos que nos preocupar e ter uma relação consciente de respeito e afeto e antes de tudo de resgate, pois sabemos que infans / infante é etimologicamente aquele que não tem fala – a minoria sem voz, que não era ouvida nem se falava sobre ela.
A criança era uma categoira menor como os silvícolas, as mulheres, os escravos. O preconceito apregoado e pouco pensado contra o INFANTIL tem uma origem histórica, ontológica.
Com esta postura em relação à criança, no desrespeito da criança abandonada, do trabalho escravo, da exploração sexual da criança, da falta de alimento, de escola, e de afeto, e de ética, ao lidar com este segmento da sociedade que tem que ser o norte das ações que significam o futuro da nossa sociedade.
O respeito e a ética – e apenas o respeito à criança e a ética – podem fazer mudar a forma de se ver a criança, de se trabalhar para a criança, de se criar para a criança.
Enquanto se vender a falsa idéia que “à criança não se engana” continuarão existindo – e aqui falamos de teatro, nosso alvo - espetáculos que evidenciam que continuam vendo a criança com todo este ranço histórico, seja que segmento da história se tome. Desde a primeira lei contra o infanticídio, até o surgimento da imprensa, da televisão e da internet.
,À criança se engana sim e se engana aos pais e, tragicamente, aos professores, principalmente quando a desculpa é falar de conteúdos programáticos ou temas transversais. E é a falta de ética de consciência histórica, de reflexão e até mesmo de escrúpulos, que faz com que, em teatro, especificamente falando agora, muitas vezes a criança seja visto com este descaso e menos-valia históricos.
Não importa o nome se teatro infantil, se teatrinho, não há técnica, dramaturgia, capacitação de professores ou o que mais seja que exerça uma mudança real, enquanto não houver a mudança ética, em relação ao trato com a criança, onde o teatro é apenas e como sempre o reflexo da sociedade.
E se continuarmos a esconder a cabeça como avestruzes, repetindo uma série de conceitos vazios, sem repensarmos o que vimos repetindo há anos, buscarmos as razões que estão por detrás da Arte para a criança, buscar a história, a construção antropológica, olharmos o teatro com outros olhos, como Obra de Arte, não avançaremos um passo.
Em 1997 Ilo Krugli no I Encontro sobre o teatro e o texto teatral para a criança dizia que a sensação que tinha era de que ele nada havia feito em trinta e cinco anos de trabalho, pois as questões eram as mesmas, artigo de Ana Maria Machado, no Jornal do Brasil, em 1975 coloca todas estas mesmas questões, de forma tão atual, que poderia ser publicada hoje, na íntegra e esta permanência e inércia fica presa a uma questão histórica e a uma postura pouco investigativa e reflexiva daqueles que trabalham neste segmento da Arte para a criança.
A literatura infantil no Brasil tem hoje um respeito internacional, grandes pensadores, pessoas dedicadas a estudar sobre o fenômeno e a necessidade da leitura há trinta anos e ainda estamos longe do ideal.
Se o teatro e as pessoas de teatro não perceberem que desta forma estão eles mesmos assassinando sua própria arte e seu próprio público, momento onde a ruptura com estes valores e comportamentos históricos se faz imperioso. Preocupar-se com o imediato - que se reduz a uma escolha de texto, uma busca de possibilidade de montagem e de veiculação do espetáculo - nada mudará qualitativamente não só em relação ao próprio teatro em si, a força criadora e modificadora do teatro, sua força transgressora.
Teatro é Arte, teatro é Obra de Arte e assim tem que ser discutida para que se mantenha eterna. Na hora em que reduzimos a Obra de Arte a um produto de venda, acabamos com a perenidade do teatro, com a eternidade das questões primeiras que impulsionam o artista a buscar respostas e a revelar seu olhar sobre o mundo.
E este comportamento se baseia antes de tudo na ética. Nada justifica uma criação que trata a criança como um ser não-pensante, ao qual é capaz de impingir qualquer produto, dizendo que a ele não se engana.
Responsabilidade dos criadores, responsabilidade dos professores que precisam pensar cada vez mais sobre o papel da Arte na construção do ser humano, responsabilidade dos pais que precisam melhor se informar sobre o que seja teatro, responsabilidade da mídia, a quem cabe informar sobre as questões vitais da cultura, responsabilidade das instituições públicas e privadas pensando na influência que o teatro e suas imagens exerce sobre o “imaginário da criança, imprimindo imagens em seu inconsciente, que irá resgatar ao longo da construção de sua personalidade” (Durand) e aí nos damos conta da responsabilidade que
temos enquanto artistas na construção do homem de amanhã. Da ética no exercício da Arte.

Bibliografia
FEITAS, Marcos Cezar (org). História Social da Infância no Brasil, 5ª ed., Cortez editora, S.P., 2003
DELGADO, Ana Cristina. Revista Espaço Acadêmico número 34, março de 2004. ISSN


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